A Cuidadora
Crônicas do Cotidiano — por Júlio Cesar Rodrigues
Não sei ainda se a história terá final feliz. Também não estou certo se será crônica ou conto. Na última linha talvez desvendemos tudo.
O causo envolveu uma garota chamada Sofia, de nove anos, filha única de família muito pobre. O pai trabalhava como coletor de reciclados e a mãe fazia meio período como faxineira. Vida dura.
Como frequentava a escola pela manhã, após o almoço a pequena Sofia cuidava sozinha da casa e também de Mafalda, uma senhorinha sem parentesco com a família, agregada há tempos por afeto e que ficou enferma.
Sofia nutria apego imenso por ela, ainda mais depois do diagnóstico de cegueira, artrite e disfunção cognitiva, tudo pela idade avançada. Houve suspeita também de diabetes, mas os recursos da família não permitiam tantos exames e remédios. Foi-se levando.
Os pais de Sofia sempre se culparam por deixar tamanha responsabilidade para a filha transformada em cuidadora. Até mamadeira ela preparava para Mafalda depois que caíram os últimos dentes.
Um aposentado que morava ao lado bem que poderia ser socorro em alguma emergência, não fosse ele meio rabugento e, ainda, locador da casa onde Sofia morava, com aluguel atrasado e despejo iminente.
A mãe de Sofia sempre recomendou para a filha: “Qualquer problema, chama o SAMU”. E pregou o número da emergência na geladeira. O dia de usá-lo chegou. Mafalda começou a passar mal e Sofia ligou para o 192 implorando ajuda para uma idosa doente.
— A pessoa está consciente? Qual a idade? — a atendeu indagou.
— Ela tem mais de quinze anos e não para de latir — Sofia respondeu, invertendo a ordem das perguntas.
A atendente encerrou a ocorrência com um palavrão. Desesperada, Sofia gritou no portão por socorro e o vizinho ranzinza, que acordava da sesta, esfregou os olhos, pegou com cuidado a vira-lata Mafalda no colo e correu pro veterinário.
Encerro o texto satisfeito porque, como se viu, desde a primeira linha busquei um final feliz: Mafalda voltou para casa revigorada depois do soro na veia e o locador desistiu do despejo, embora pendente o aluguel.
Ambos já são vistos passeando juntos pela vizinhança, no ritmo que a idade lhes permite, enquanto Sofia vai agora tranquila para a escola.
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Toda semana, um novo episódio da série Crônicas do Cotidiano.
Sobre o autor
Júlio Cesar Rodrigues nasceu em Arapongas (PR), em novembro de 1968. É advogado e já atuou como repórter em veículos como O Diário, a revista Pois É e a TV Cultura (afiliada Globo), em Maringá (PR).
Atualmente, escreve crônicas na tradicional Revista da Cidade, publicação com mais de seis décadas de história em sua família, e mantém a página Instagram @certascronicas, onde transforma o cotidiano em textos leves, sensíveis e reflexivos.
