Artigo inédito de Sandra Gasparotti
Há textos que nascem para agradar. Este não é um deles.
Quem escreve para agradar a todos, raramente diz algo que mereça ser lembrado. A história mostra que as ideias que realmente importam quase sempre surgem em confronto com o espírito do tempo. Aleksandr Solzhenitsyn, em seu ensaio "Viver Sem Mentira" (Live Not by Lies), advertiu que a primeira forma de resistência contra a degradação moral de uma sociedade é simples: recusar-se a viver dentro da mentira.
Há momentos na história em que uma civilização não percebe que está sendo lentamente deslocada de seus próprios fundamentos. Não é um colapso imediato; as ruínas raramente aparecem de um dia para o outro. Antes disso, ocorre algo mais silencioso e perigoso: a verdade passa a ser tratada como opinião, a virtude começa a parecer suspeita e a capacidade de indignação desaparece.
Quando uma sociedade perde a capacidade de indignar-se diante da mentira, da injustiça ou do absurdo, o processo de erosão moral já avançou muito. Solzhenitsyn advertiu repetidas vezes que o maior perigo não é apenas a mentira, mas a disposição coletiva de aceitá-la silenciosamente. Uma civilização pode sobreviver a muitos erros; o que ela raramente sobrevive é à indiferença moral.
A força que sustenta uma civilização não é material. Não nasce do dinheiro, nem do conforto, nem da acumulação de bens. Ela nasce de algo muito mais difícil de construir: o caráter humano. O filósofo Aristóteles ensinou, em Ética a Nicômaco, que as sociedades são sustentadas por virtudes cultivadas no interior das pessoas: prudência, coragem, justiça e domínio de si.
Quando essas virtudes desaparecem, nenhuma estrutura política consegue sustentar por muito tempo aquilo que a alma humana já abandonou.
Essa compreensão atravessou séculos e encontrou expressão profunda na tradição cristã. Ao contrário do que alguns intérpretes apressados sugeriram, a moral cristã não se construiu sobre a fraqueza; se fosse fraca, jamais teria moldado continentes e culturas durante dois milênios. Para além do dogma, a história mostra o quanto as virtudes são fundamentais para a preservação da nossa essência real — não a criada para estruturas de poder terrestre.
O pensador inglês G. K. Chesterton observou, em Orthodoxy, que o ideal cristão não fracassou por ser fraco; ao contrário, ele foi considerado difícil e deixado de lado. Ele exige disciplina interior e coragem moral — virtudes que nenhuma sociedade sustenta sem esforço. C. S. Lewis reforçou, em Mere Christianity, que a verdadeira humildade não consiste em diminuir-se, mas em compreender corretamente a própria posição no mundo. Trata-se de uma clareza moral, não de uma submissão servil.
Civilizações florescem quando esse tipo de força interior existe. Elas começam a enfraquecer quando passam a desconfiar da própria ideia de virtude e quando a fraqueza passa a ser apresentada como valor político. O poder raramente se mantém apenas pela força bruta; ele se consolida pela divisão das forças sociais.
Desde a antiguidade, sabe-se que governar torna-se mais fácil quando potenciais forças sociais são mantidas em conflito permanente. Maquiavel, em O Príncipe, já analisava como o poder se preserva dividindo grupos que poderiam desafiá-lo.
Quando grupos sociais passam a enxergar uns aos outros como inimigos permanentes, a energia que poderia transformar a sociedade dissolve-se em conflitos intermináveis.
No mundo contemporâneo, essa fragmentação assume a forma de políticas identitárias e do coitadismo, onde indivíduos são reduzidos a categorias rígidas — raça, gênero, origem — e convidados a enxergar o mundo através do ressentimento. Francis Fukuyama, em Identity: The Demand for Dignity and the Politics of Resentment, mostra como a política passou a girar em torno de disputas entre identidades coletivas.
O resultado é uma sociedade fragmentada, incapaz de reconhecer aquilo que une seus membros.
Mas talvez o mecanismo mais perigoso seja a criação de um mundo paralelo. George Orwell capturou isso em 1984: se as palavras mudam de significado, a própria percepção do mundo muda com elas. Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, observou que sistemas ideológicos constroem universos conceituais fechados nos quais a narrativa substitui a realidade. Nesse ponto, a mentira deixa de ser um erro; ela se torna a própria estrutura de poder.
Solzhenitsyn testemunhou isso no sistema soviético: milhões de pessoas sabiam que o discurso oficial era falso, mas repetiam-no diariamente. A mentira tornou-se ambiente. E, quando a mentira se torna ambiente, a consciência dorme para dar realidade a um mundo inexistente, baseado em histórias bem contadas que prometem um paraíso futuro enquanto corroem a vida real e o presente. Em nome desse futuro inexistente, perde-se a humanidade.
Transformações culturais profundas avançam lentamente. O pensador Antonio Gramsci sugeriu que mudanças políticas são precedidas por mudanças nas instituições culturais — educação, linguagem e valores. Friedrich Hayek, em The Road to Serfdom, alertou que transformações graduais na relação entre indivíduo e Estado alteram a estrutura da sociedade sem que as pessoas percebam o processo enquanto ele ocorre.
Quando instituições como família, escola e religião são desfiguradas, a própria ideia de verdade passa a parecer antiquada. O século XX produziu exemplos suficientes de massas que trabalharam e morreram dentro de estruturas que prometiam libertação e entregaram apenas controle. Nenhum desses processos começou com violência; começaram com narrativas e a lenta substituição da realidade por versões convenientes.
O verdadeiro perigo começa quando a sociedade perde a capacidade de reconhecer que errou. Quando a verdade se torna negociável, quando a virtude se torna suspeita e quando a indignação desaparece, o processo está quase completo. Nesse ponto, os indivíduos deixam de agir como pessoas conscientes e passam a comportar-se como peças de uma máquina.
Uma sociedade composta apenas por peças deixa de ser uma comunidade humana. Torna-se uma linha de produção. Indivíduos transformam-se em números. Consciências tornam-se estatísticas. E o ser humano, que deveria ser o centro da ordem moral, passa a ser tratado como elemento descartável dentro de um sistema que já não precisa mais dele — exceto enquanto for útil para mantê-lo funcionando.
A pergunta decisiva, então, não é política. É moral: Ainda somos capazes de reconhecer a verdade? Ainda somos capazes de nos indignar diante do absurdo?
Porque, quando uma sociedade perde essa capacidade, ela deixa de ser uma comunidade de pessoas para tornar-se algo muito diferente: uma multidão administrada. E civilizações administradas podem até continuar funcionando por algum tempo.
