Hoje é dia da mulher. Sou mulher, feminina, não feminista.
Crônica inédita de Sandra Gasparotti
Parabenizo a todas as mulheres de corpo e de alma, lindas, amadas, cuidadas e cuidadores, mulheres de todas as raças, culturas e cores.
E o meu cumprimento está direcionado ao ser, à natureza feminina, à mulher por inteiro, porque, por palavras de ordem, é preciso distinguir conceitos. Uma coisa é o feminino. Outra, profundamente distinta, é o feminismo. Quando essas duas categorias se confundem, o debate deixa de ser análise e passa a ser ruído.
O feminino pertence ao campo do ser. O feminismo pertence ao campo da ação política. O primeiro descreve uma realidade humana concreta, biológica e simbólica. O segundo interpreta essa realidade e propõe transformações sociais a partir dela. Um é ontológico. O outro é histórico.
A diferença sexual antecede qualquer teoria. Independentemente de crença religiosa, trata-se de dado biológico verificável. A espécie humana apresenta dimorfismo sexual. Há diferenças hormonais, reprodutivas e médias estatísticas de força física. A ciência contemporânea reconhece essas distinções e também reconhece a ampla sobreposição entre homens e mulheres. Diferença não é hierarquia. Diferença é estrutura.
Na filosofia antiga, essa distinção era vista como parte da ordem do mundo. Aristóteles compreendia homem e mulher como distintos por natureza e com funções diversas na organização da pólis. Sua leitura foi criticada por naturalizar hierarquias, mas é inegável que ele tratava a diferença como realidade, não como construção arbitrária. Já Platão admitia que mulheres poderiam exercer funções públicas se recebessem a mesma formação, pois a alma, para ele, não possuía sexo.
Na tradição cristã, afirma-se igualdade ontológica: homem e mulher são criados à imagem de Deus. Tomás de Aquino sustentava que a diferença sexual integra a ordem da criação. Não é falha, não é erro, é constitutiva da realidade humana. Isso não elimina abusos históricos, mas impede que simplifiquemos séculos de organização social como mera opressão deliberada.
O feminismo surge quando o princípio moderno de igualdade jurídica passa a ser aplicado às mulheres. Mary Wollstonecraft reivindica educação e cidadania no século XVIII. No século XX, Simone de Beauvoir publica O Segundo Sexo e desloca o eixo do debate ao afirmar que “não se nasce mulher, torna-se”. Décadas depois, Judith Butler propõe que o gênero é performativo, produzido por práticas sociais e linguísticas reiteradas.
Perceba o movimento histórico: do corpo para o discurso, da natureza para a construção, da biologia para a cultura. A discussão contemporânea não se limita à igualdade jurídica; em determinadas correntes, questiona a própria definição de natureza humana.
Na antropologia comparada, observa-se que sociedades organizaram papéis masculinos e femininos de formas distintas. Não há um único modelo universal. No entanto, em praticamente todas as culturas, gravidez, amamentação e diferenças médias de força influenciaram a divisão do trabalho. Antes de ser ideologia, foi necessidade de sobrevivência.
A Revolução Industrial alterou essa dinâmica. As guerras mundiais consolidaram a presença feminina no mercado de trabalho. A partir daí, reivindicações por direitos civis, trabalhistas e políticos tornaram-se permanentes. O feminismo ampliou suas ondas e suas pautas. O que começou como demanda por igualdade jurídica, em certos contextos, transformou-se em reinterpretação radical da própria identidade humana.
E aqui o debate deixa de ser apenas político. Torna-se metafísico.
Se a identidade é integralmente construção cultural, qual é o papel do corpo? Se a diferença sexual é estrutural, qual é o limite da engenharia social? Essas não são perguntas superficiais. São questões que atravessam filosofia, biologia, sociologia e direito.
Na literatura, o feminino antecede qualquer movimento organizado. Antígona enfrenta o poder político em nome da consciência moral. Em Madame Bovary, o conflito feminino aparece nas tensões entre desejo e restrição social. Em Orgulho e Preconceito, observa-se crítica às limitações econômicas impostas às mulheres muito antes das formulações acadêmicas modernas.
O feminino atravessa civilizações como realidade biológica e simbólica. O feminismo é interpretação histórica dessa realidade. Eles podem dialogar, podem convergir em determinados momentos, mas não são idênticos.
É possível reconhecer simultaneamente dois fatos sem cair em radicalismos: a mulher é realidade biológica anterior a qualquer pauta política, e injustiças históricas existiram e puderam ser corrigidas. Negar qualquer um desses polos é distorcer o debate.
Por isso, antes de repetir discursos prontos neste mês de março, pergunte-se: você está defendendo uma realidade ou uma narrativa? Está falando do ser ou de uma proposta de reorganização social?
Antes de ser bandeira, a mulher foi civilização. Antes de ser pauta ideológica, foi fundamento familiar, cultural e social. Antes de ser teoria, foi corpo, maternidade, inteligência, trabalho e liderança.
Enquanto não houver clareza sobre a relação entre natureza, cultura e liberdade, a definição de mulher continuará no centro das disputas contemporâneas. E talvez isso revele algo mais profundo: quando deixamos de compreender o que somos, abrimos espaço para que o poder nos diga o que devemos ser.
Porque sem ontologia, a política vira engenharia social. E quando o ser é dissolvido, o poder ocupa o lugar da verdade.
Grande abraço
