O PODER DO VENTRE

Crônica inédita de Sandra Gasparotti

 

Dia desses, achei uma Barbie da minha filha.

 

Imediatamente, minha mente passeou pelos corredores do shopping Catuaí, buscando exatamente aquela do desenho da Disney: Anastasia. Naquela época, eu só queria deixar minha filha feliz e entregar a boneca que ela queria. Hoje, depois de todos esses momentos preciosos e únicos de mãe, filha e brinquedo, brincadeiras, da correria do dia a dia, trabalho, escola, broncas e abraços, pensei não mais na boneca, mas na mulher. No instinto da menina que brinca de boneca.

Lembrei das minhas próprias bonecas — uma espiga de milho que parecia ter cabelo — e da maravilha de ganhar uma boneca que chorava ao ser abaixada e levantada, abrindo e fechando os olhos. Lembrei também da “Bebê Moranguinho”, que ganhei já moça, de meus pais, como consolo por todas as bonecas que não tive, embora já não brincasse mais.

 

Foi então que pensei, com uma clareza quase desconfortável, na menina, na mulher, no ventre, no poder feminino, na natureza materna, nas modas e contradições do nosso tempo. Março se aproxima e, com ele, as comemorações. Em março, o mundo celebra não só o dia, mas o mês da mulher, oficializado pela ONU em 1975, sob a justificativa nobre de igualdade de direitos, combate à discriminação e reconhecimento social. É o que se diz. Mas pensemos bem.

Para que uma data destinada a afirmar que a mulher é grande? Não seria a própria existência da data uma forma sutil de insinuar que essa grandeza precisa de chancela? Datas moldam imaginários. Quando uma data se consolida globalmente, ela não apenas celebra: ela ensina o que deve ser celebrado. E, nesse caso — perdoem-me as feministas —, celebra-se uma mulher diminuída. Consolida-se a narrativa da oprimida estrutural. Não se exalta a grandeza que nunca precisou pedir licença.

Como a mulher pode ser fortalecida por um discurso que a apresenta como eterna vítima? Quantas vezes já ouvi, entre mulheres, a frase: “Que prazer estar entre mulheres nesse mundo patriarcal, onde somos tão oprimidas”.

 Poupe-me da caricatura. O que seria do homem sem a mulher? E o que seria da mulher sem o homem? Complementaridade não é submissão. É estrutura.

O mundo anda estranho. Masculinizam mulheres. Feminilizam homens. Transformam obviedades biológicas em debates metafísicos. Quando um homem trans engravida uma mulher trans, não estamos apenas discutindo identidade; estamos discutindo ontologia. E isso exige mais do que slogans.

Não falo de cores. Não se define ninguém por gostar de azul ou rosa. Essa história é, inclusive, recente: consolidou-se no século XX, após a Segunda Guerra Mundial. Rosa para menina e azul para menino foram padronizados nos Estados Unidos e depois exportados culturalmente.

Aliás, o manto de Nossa Senhora é azul; a túnica de Cristo foi vermelha — e isso não importa. O que importa é o significado da mulher e do homem, sua grandeza e sua identidade.

Obviamente, não aprovo injustiças que acontecem com mulheres, nem com homens. São seres humanos e, aliás, precisam ser tratados igualmente como tal — sem produzir uma vítima feminina para poder condenar o homem, pai e provedor, como bandido.

Não ignoro injustiças. Elas existiram e existem. Mas uma mulher que cresce acreditando ser menor dificilmente encontrará força para ser maior do que o rótulo que lhe foi entregue.O mais triste é ver mulheres que nem concordam com tudo isso, mas que tratam o assunto com naturalidade e normalidade.

Respeito toda opinião, não há problema em divergir, e nem em expor a própria opinião. Aliás, respeito não tem sexo; tem sabor de humanidade — de homem e de mulher, ambos criados à imagem e semelhança de Deus. Quero minha cota de respeito e quero respeitar também. Mas pergunto: como chegamos aqui, tão fragmentados, tão rotulados, como se a diferença fosse um erro a ser corrigido?

A moda da Barbie teve um gatilho: um filme infantil que despertou desejo, consumo e histórias, e revela, já na infância, que escolhas podem ser induzidas ou moldadas. Um filme, uma música, uma narrativa externa entram em nossa vida e determinam desejos. A identidade de gênero não escapa dessa lógica cultural. Quando uma ideia se torna moda acadêmica, quem não concorda passa a parecer ignorante. E assim se retira do indivíduo o livre-arbítrio sob o disfarce da libertação.

A Barbie da minha filha é só um exemplo. Veja bem. Desde a Antiguidade, as bonecas acompanham a história humana não apenas como brinquedos, mas como símbolos culturais, religiosos e sociais. No Egito, na Grécia e em Roma, eram feitas de argila, madeira, osso ou marfim. Não serviam apenas para brincar: tinham funções ritualísticas e simbólicas. Eram enterradas com crianças ou oferecidas aos deuses quando as meninas atingiam a maioridade, funcionando como amuletos de proteção, companhia e transição para uma nova fase da vida.

Na Idade Média e no Renascimento, as bonecas continuaram a ser produzidas em madeira, pano ou materiais rústicos e representavam cenas religiosas. A partir do século XVI, porém, passaram a desempenhar também outra função: servir como pequenas “manequins” para apresentar tendências de moda às aristocratas. Antes de se tornarem brinquedos populares infantis, foram instrumentos de difusão cultural e estética.

Mas, ultimamente, a boneca passou a ser símbolo de opressão. Dizem que a boneca condena as meninas aos papéis domésticos, à maternidade e à gestão do lar, que traz problemas de autoimagem às meninas e resolveram demonizar o brinquedo.

Quanto às mulheres adultas, resolveram brincar de bonecas. Ao invés de gerar vida, adotaram bebês reborn.

As modas determinam escolhas e, não raro, aprisionam o pensamento — até porque esse é o objetivo. Então vira consenso coletivo a moda do corpo exposto, a moda do aborto como solução imediata, a moda de transformar tudo em direito desvinculado de responsabilidade, a moda de achar que temos apenas direitos e nenhum dever, a moda de acreditar que nascemos para descansar em berço esplêndido, sem trabalhar. E também a moda de acreditar que a mulher só passou a ter valor depois que inventaram um dia internacional para ela.

Mas o mundo conheceu grandes mulheres muito antes da institucionalização de qualquer data.

Hatshepsut governou o Egito no século XV a.C. com autoridade plena. Cleópatra negociou com César e Marco Antônio como igual em estratégia e diplomacia. Nefertiti participou de uma das revoluções religiosas mais radicais do mundo antigo. Débora, juíza de Israel, convocava líderes militares e orientava decisões estratégicas. Lívia Drusa influenciou a sucessão imperial romana. A materfamilias sustentava a estrutura moral da casa romana.

Agripina articulou a ascensão de Nero ao trono — e foi assassinada por ele quando seu poder materno se tornou ameaça. Nero matou a própria mãe para governar sem contenção. Funcionou? Não. Seu reinado terminou em colapso político e suicídio. O poder que tenta destruir a própria origem costuma ruir sobre si mesmo.

Roubaram nossa coroa. E nos convenceram de que nunca fomos rainhas. Demonizaram o ventre.

Muito antes do monoteísmo hebraico, culturas veneravam a Grande Mãe: Ísis, Cibele, Deméter. O feminino era princípio gerador; a fertilidade era fundamento cósmico. Maria é chamada Regina Caeli não por casamento, mas por maternidade. Na tradição davídica, a mãe do rei ocupava posição singular de autoridade. O ventre não era limitação. Era trono.

Hoje virou moda não ser mãe. Virou moda declarar-se mãe de pet. Virou moda esconder a vocação materna como se fosse atraso. Virou moda rotular, dividir, assumir-se vítima permanente e culpar os bem-sucedidos. Virou moda transformar diferença em opressão automática. Virou moda culpar os filhos pelos insucessos, quando são eles que enobrecem a mulher. Virou moda enxergar o mundo por pautas, não por verdades.

Sim, eu sei. O leitor já quer me cancelar. Não me importo. Respeito sua posição, mas respeito ainda mais minha liberdade de pensar. Meu livre-arbítrio é como propriedade privada: você não tem o direito de invadir.

Mas, antes do julgamento, pense: durante séculos, homem e mulher foram compreendidos como distintos e complementares. Não idênticos. Não intercambiáveis. Complementares.

Diga-me, por favor: nunca sonhou caminhar de mãos dadas com seu amor, sendo simplesmente homem e mulher? Nunca pensou em uma vida sendo gerada em seu ventre — ou crescendo no ventre de sua mulher?

Pense nas heroínas da literatura: Penélope, Julieta, Emma Bovary, Anna Kariênina, Scheherazade. Pense em Maria de Nazaré. Pense na rainha Vitória, em Sissi. Como as imagina? Fragilizadas ou centrais?

A mudança de eixo cultural não é superficial. É antropológica. O fundamento da dignidade está sendo redefinido. Ainda podemos resgatar homens e mulheres fortes — biologicamente, moralmente e espiritualmente.

A frase de Simone de Beauvoir — “não se nasce mulher: torna-se” — ultrapassou o campo acadêmico. Infiltrou-se na educação, na legislação, na linguagem, na estética, na cultura. Ideias não ficam no papel. Moldam universidades. Moldam mentalidades. Moldam o ventre das meninas.

Antes da ONU, antes das teorias críticas, antes das campanhas globais, havia algo amplamente reconhecido: a mulher como matriz da vida. A modernidade não retirou poder da mulher; apenas redefiniu onde ele deveria estar. Tirou-o do centro formador da vida e o transferiu para o mercado. De relacional, tornou-se produtivo. De estrutural, tornou-se individual. E, ao deslocar a mulher da centralidade familiar, desloca-se também a formação da próxima geração.

O verdadeiro embate não é sobre datas. Não é sobre slogans. Não é sobre mercado. É antropológico. É civilizacional. É sobre qual concepção de ser humano sustentará a próxima geração.

E, gostem ou não, tudo começa no ventre.

Que toda rainha tenha seu rei.

E que do rei e da rainha nasçam príncipes e princesas que brincam de boneca — sejam Barbies ou espigas de milho —, mas que sejam família sob as bênçãos de Nosso Senhor.