Crônica inédita de Sandra Gasparotti

 

Olhar para as próprias feridas e tentar curá-las sozinha é, por si só, um exercício difícil. É complicado assumir erros, triste encarar as consequências das próprias escolhas — e mais difícil ainda reorganizar o que ficou fora do lugar.

E por isso muitos feridos adquirem a tenebrosa mania de ocultar suas infecções e cicatrizes expondo a dos outros como se isso deixasse as próprias, invisíveis. Com esse intuito transformam em esparadrapo o exercício contínuo de maldade, chafurdando com prazer nas perebas da vida alheia, transformando uma simples espinha em metástase moral.

Para alguns o sofrimento alheio produz um deleite peculiar porque momentaneamente traz um conforto moral de superioridade.

Também há amigos como o fariseu do Evangelho de Lucas (18:9-14): confiante em sua própria justiça, agradece por não ser como os outros, incapaz de ver os próprios defeitos. Além do mais, poucos suportam a felicidade alheia. A inveja que Lúcifer teve de Deus segue ativa e bem distribuída mundo afora.

Também eu tenho feridas, e muitas. Somos todos santos e pecadores e, quem não tiver nenhum pecado, bem, que atire a primeira pedra, o que não pode acontecer é o regozijo da desgraça alheia e reputações também.

    • A Fofoca como Mecanismo Literário: De Capitu a Brás Cubas

E, porfalar em reputação, lembro-me de Capitu, que jamais pôde se defender do agregado José Dias, o instigador silencioso que empurrou Dom Casmurro a narrar sua versão de uma suposta infidelidade, condenando esposa e filho a uma sentença moral sem contraditório, fundada em injúria e suspeita.

Machado de Assis dominava como poucos esse mecanismo. Brás Cubas, em Memórias Póstumas, talvez seja o maior defunto fofoqueiro da literatura: confessa-se julgando, expõe-se diminuindo os outros.

Também não faltam as comadres de O Cortiço, de Aluísio Azevedo — parteiras de intrigas, juízos e falatórios, representantes eternas da vigilância moral travestida de zelo.

Em linhas gerais, a fofoca é sempre um ponto de vista interessado: inveja disfarçada de análise.

Esconder-se para não virar assunto parece tentador, mas o silêncio também gera narrativa. Logo surge o velho axioma: “onde há fumaça, há fogo”. E os achismos se multiplicam, porque falar da vida alheia é sempre mais fácil do que encarar as próprias misérias.

Não há como se proteger da vergonha imposta por quem deveria sentir vergonha por falar demais, inventar demais, consumir palavras estragadas e devolvê-las como se fossem pérolas.

Isso não deveria ser assim, mas virou norma. A fofoca profissionalizou-se: agora atende pelo nome de influência.

Convém lembrar que tráfico de influência, calúnia, injúria e difamação são crimes tipificados no Código Penal — embora, na vida cotidiana, frequentemente se convertam apenas em likes e cancelamentos.

Os reveses da vida não nos destroem sozinhos. Os linguarudos também sofrem. Podem causar dor aos que viram objeto de seus falatórios, mas também choram, adoecem e desejam desaparecer — como avestruzes que enterram a cabeça depois de usar o próprio bico.

Camuflar é uma forma de esconder a dor. Fofocar também.

Todos sabemos: pessoas sorriem de coração partido, aparentam prosperidade enquanto acumulam dívidas, simulam indiferença às rasteiras da vida. Às vezes os outros acreditam — nós mesmos, não.

Ignorar problemas é alimentar vulcões. Mais cedo ou mais tarde, tudo entra em erupção: no corpo, na mente ou na alma. E fofoqueiros também têm alma — e ela também terá um destino.

Se fosse possível escolher, talvez fosse melhor ser toupeira do que avestruz: viver em tocas, sem precisar dar satisfações ao mundo.

Santo Agostinho dizia que a verdade está dentro, não fora. Bisbilhotar é afastar-se de si mesmo — uma distração espiritual.

Língua solta costuma ser ciúme ou inveja. Como a de Caim contra Abel. Caim matou; os fofoqueiros falam. São métodos distintos para destruir a conquista do outro.

Outro erro grave é tentar corresponder às expectativas alheias. Isso nos desalinha e nos faz perder a medida dos próprios passos. Emma Bovary é o exemplo clássico: viveu segundo ideais emprestados e morreu sob o peso das próprias ilusões.

  • A Profissionalização do Julgamento no Mundo Digital

Os tempos mudaram; as histórias, não.

A fofoca de comadre tornou-se digital. Instaurou-se a comadreria virtual, que eterniza o dito e o inventado como uma marca de Caim perseguindo suas vítimas.

Quem fala demais busca poder. Influência. Vantagem. O tráfico de influência não é moderno — é uma das formas mais antigas de corrupção moral e política.

O mundo tornou-se um grande índice de livro: subtítulos, categorias e narrativas em excesso — todas com mais versões do que verdades. Vivemos contos de fadas sombrios, onde o território digital virou feudo de poderes paralelos.

Autoridade sem mérito é o sonho do incompetente. E não é preciso ficha criminal para ser bandido social.

Nem tudo que é legal é moral. Nem tudo que é moral é legal. Talvez por isso Robin Hood continue seduzindo — inclusive em suas versões digitais.

Falar mal concede um poder imediato: o de diminuir o outro para inflar a si mesmo. Mas há um poder maior — o que liberta.

O verdadeiro poder é o pensamento: ler, interpretar, observar, planejar. É ele que protege o espírito da síndrome de Deus, que confunde criaturas com anjos caídos.

Meu poder está aqui: na junção entre mim e você, que lê. Pensar sozinha já é um ato potente; somar pensamentos, mais ainda. Eis o medo de quem deseja dominar.

Confesso: o que eu queria agora era o poder de fugir de tantas comadres, reais ou virtuais, para não virar assunto de ninguém.

Já deveria ter se esgotado o prazer de julgar roupas, carros, casas e vidas. A minha vida é só minha. E, se eu quiser viver como toupeira, assim seja. Prefiro a toca ao pavão que perde as penas.

Meu poder é este: ter opinião própria, preservar minha individualidade, respeitar meu território — e o dos outros. Propriedade privada também é espiritual.

Cada um na sua toca. E, antes de falar de alguém, lembre-se:

“O homem perverso espalha contendas, e o difamador separa os maiores amigos.”

 

(Provérbios 16:28)